Diagnosticado em 2016 com uma forma rara de demĂȘncia, Jones morreu na terça (21), aos 77 anos

O mundo fica mais triste com a morte de Terry Jones, um dos integrantes do impagĂĄvel sexteto inglĂȘs de humor Monty Phyton, informada pela famĂlia em um comunicado. E o mundo fica tambĂ©m menos inteligente. Jones tinha uma bagagem intelectual invejĂĄvel e era fundamental na criação dos roteiros, costurando as ideias dos parceiros com sabedoria.
Diagnosticado em 2016 com uma forma rara de demĂȘncia, Jones morreu na terça (21), aos 77 anos, ao lado da segunda mulher, Anna Soderstrom, com quem teve uma filha, Siri. Em seu primeiro casamento, com Alison Telfer, teve os filhos Sally e Bill, este tambĂ©m roteirista e diretor. Nascido no PaĂs de Gales, ele morreu em sua casa, no norte de Londres.
Essa capacidade de Jones para extrair o melhor de cada um e amarrar tudo com ritmo e humor o levou a ser o diretor dos filmes da trupe. Ele assina "Monty Phyton em Busca da Cålice Sagrado" (1975), "Monty Phyton: A Vida de Brian" (1979) e "Monty Phyton: O Sentido da Vida" (1983). Ele dividiu a direção do primeiro filme com o colega e xarå Terry Gilliam, mas depois tomou a frente nos projetos seguintes.
Por isso, muita gente ficou surpreendida quando Gilliam se mostrou um cineasta aclamado por crĂtica e pĂșblico depois da separação do grupo, enquanto Jones teve uma carreira discreta atrĂĄs das cĂąmeras.
O grupo inglĂȘs foi formado em 1969 pelos atores e roteiristas Terry Jones, Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese e Michael Palin. Quando eles começaram a criar o programa "Monty Phyton's Flying Circus" para a BBC, jĂĄ estava com eles o sexto integrante, o cartunista Terry Gilliam, que tinha trabalhado na revista "Mad".
Eles haviam se encontrado vĂĄrias vezes antes, em duplas e trios, em projetos de vida curta na TV britĂąnica. A ideia do "Flying Circus" era criar um grupo de repertĂłrio, com os mesmos atores alternando-se em personagens de esquetes. Uma tradição no teatro inglĂȘs que seria levada Ă televisĂŁo. O formato do programa foi inspiração inegĂĄvel para humorĂsticos como o americano "Saturday Night Live" e o brasileiro "TV Pirata".
A formação dos integrantes era pouco comum num programa de TV. Eles cursaram fortalezas da melhor educação britùnica, alguns em Cambridge, outros em Oxford. Jones foi aceito para as duas universidades, e optou por Oxford.
Os roteiros eram nada simples. Falavam de histĂłria antiga, religiĂŁo, filosofia, literatura, mĂșsica clĂĄssica, psicologia. Numa entrevista em 1980, Jones revelou que, nas reuniĂ”es de roteiro, quando algum deles questionava que talvez o pĂșblico nĂŁo fosse capaz de entender sobre o que eles estavam falando numa piada, aĂ sim Ă© que eles ficavam empolgados com o resultado.
Jones assumiu sempre nas esquetes e nos filmes o papel da mulher de meia idade com voz estridente. E gostava também de interpretar mendigos. Criava tantos personagens que eram moradores de rua politizados que os outros do grupo tratavam de cortar vårios deles.
"Eles acham que eu escrevo muito sobre mendigos, mas sĂŁo Ăłtimos personagens, sĂŁo observadores do mundo o tempo todo. E aĂ meus colegas se vingam me dando sempre o papel da mulher feia. Nunca interpreto uma bonita, sĂł as feias", reclamava Jones.
Os 45 episódios, exibidos até 1974, fizeram tanto sucesso que levaram o Monty Phython ao teatro e ao cinema. Depois do longa "O Sentido da Vida", de 1983, todos concordaram em desfazer o grupo, cumprindo apenas alguns compromissos que jå estavam agendados. A intenção de Jones era seguir a carreira de cineasta.
Na primeira vez ao dirigir um filme fora do grupo, ele optou por um humor cĂnico e de poucas risadas em "Personal Services" (1987), sobre um bordel especializado em atender homens idosos. Convencido de que o pĂșblico queria dele algo mais prĂłximo ao universo lĂșdico e fantĂĄstico do Monty Phyton, ele dirigiu entĂŁo "Erik, o Viking" (1989), e fez algum sucesso. Ă uma aventura que se passa no mundo da mitologia escandinava, com Tim Robbins no papel principal.
Depois disso, Jones se afastou da direção de longas. Passou anos voltado Ă carreira de ator, sem grandes ĂȘxitos, e Ă s vezes dirigia um curta ou algum episĂłdio de sĂ©rie de TV. Em 2015, ele escreveu e dirigiu com seu filho, Bill Jones, o elogiado documentĂĄrio "Boom Bust Boom", com bonecos de massinha explicando a histĂłria da economia mundial.
O maior destaque em sua vida depois de Monty Phyton foi como autor de premiados livros para crianças. Depois passou tambĂ©m a escrever livros de histĂłria para adultos, notadamente sobre a Idade MĂ©dia, que foi seu objeto de estudo por boa parte da vida. Ele gravou alguns documentĂĄrios sobre o tema para a BBC.Seu retorno Ă s comĂ©dias de cinema foi tambĂ©m em 2015, quando escreveu e dirigiu seu Ășltimo filme, "Absolutamente ImpossĂvel", com o Ăłtimo Simon Pegg no papel de um homem que faz contato com alienĂgenas. O filme nĂŁo foi bem nas bilheterias. Provavelmente o pĂșblico de hoje Ă© incapaz de processar o humor culto e refinado de Terry Jones.
por FOLHAPRESS